29 de janeiro de 2026

Governos e especialistas do mundo todo intensificam medidas para proteger crianças dos riscos do uso excessivo de telas e redes sociais, destacando a responsabilidade das plataformas e o papel das famílias.
O debate sobre o impacto das telas na saúde mental das crianças nunca foi tão intenso. Nos últimos meses, governos e entidades médicas de diferentes países passaram a defender uma mudança profunda na forma como pais, escolas e empresas de tecnologia lidam com o ambiente digital infantil. O consenso é claro: a simples limitação do tempo de tela já não é suficiente.
Enquanto relatórios de entidades médicas reforçam a necessidade de uma abordagem mais ampla, políticas públicas adotadas no Reino Unido e na França demonstram que os governos estão dispostos a intervir de forma mais direta para proteger a nova geração dos efeitos negativos das redes sociais e dos smartphones.
A American Academy of Pediatrics (AAP) publicou um relatório contundente afirmando que apenas restringir o tempo de uso das telas é uma medida insuficiente diante da complexidade do ecossistema digital atual. Segundo a entidade, os algoritmos e o design das plataformas exercem influência direta sobre o comportamento, as emoções e a saúde mental de crianças e adolescentes.
O documento defende que os pais adotem uma postura mais ativa, baseada no diálogo sobre os conteúdos consumidos e na participação na vida digital dos filhos, em vez de se limitarem ao controle das horas de uso. O chamado co-uso de mídias — assistir juntos, comentar e compreender as experiências on-line — é apontado como uma das estratégias mais eficazes para a construção de um ambiente digital saudável.
Além disso, o relatório enfatiza que a responsabilidade não pode recair exclusivamente sobre as famílias. Empresas de tecnologia devem responder por práticas nocivas, enquanto governos precisam estabelecer regulamentações que protejam os jovens da manipulação algorítmica e da exposição a conteúdos prejudiciais. Essa abordagem sinaliza uma mudança de paradigma: sai o foco exclusivo no controle doméstico e entra uma lógica de responsabilidade compartilhada entre famílias, plataformas e sociedade.
Os professores também foram orientados a não utilizarem seus próprios celulares na presença dos alunos, reforçando o exemplo e contribuindo para a consolidação de uma cultura de foco e atenção. Segundo dados oficiais, cerca de 58% dos estudantes do ensino médio ainda utilizam celulares sem autorização em sala de aula, o que motivou a adoção de regras mais rígidas.
No Reino Unido, a resposta tem sido mais pragmática no ambiente escolar. A secretária de Educação, Bridget Phillipson, anunciou uma orientação nacional determinando que todas as escolas mantenham seus espaços totalmente livres de celulares, inclusive durante recreios e intervalos.
A diretriz é rigorosa: os aparelhos não podem ser utilizados nem mesmo como calculadora ou ferramenta de pesquisa. O órgão de inspeção escolar, Ofsted, foi encarregado de fiscalizar o cumprimento da medida durante as visitas às instituições.
Os professores também foram orientados a não utilizarem seus próprios celulares na presença dos alunos, reforçando o exemplo e contribuindo para a consolidação de uma cultura de foco e atenção. Segundo dados oficiais, cerca de 58% dos estudantes do ensino médio ainda utilizam celulares sem autorização em sala de aula, o que motivou a adoção de regras mais rígidas.
A iniciativa integra um movimento mais amplo de revisão do uso de tecnologia entre jovens no país, incluindo consultas públicas sobre restrições às redes sociais e a reavaliação da idade mínima de consentimento digital, inspiradas em modelos adotados na Austrália.
A França avançou ainda mais na regulamentação. Com ampla maioria, o Parlamento francês aprovou um projeto de lei que proíbe o uso de redes sociais por menores de 15 anos. A proposta, apoiada pelo presidente Emmanuel Macron, também estende a proibição do uso de celulares às escolas secundárias, ampliando restrições já existentes no ensino fundamental.
Ao defender a medida, Macron afirmou que “o cérebro das nossas crianças não está à venda”, em referência à influência exercida pelos algoritmos de grandes plataformas digitais. O governo francês sustenta que a legislação responde ao aumento de casos de cyberbullying, compulsão digital e queda de autoestima entre jovens.
Dados oficiais indicam que cerca de 90% dos adolescentes entre 12 e 17 anos utilizam smartphones diariamente, muitos deles passando várias horas em redes sociais. Para os defensores da lei, a restrição pode reduzir a exposição a conteúdos nocivos e contribuir para uma relação mais equilibrada entre juventude e tecnologia. A proposta ainda depende da aprovação do Senado, mas é considerada praticamente certa de ser sancionada até setembro de 2026.
A convergência dessas iniciativas, vindas dos Estados Unidos, do Reino Unido e da França, revela uma mudança significativa na forma como o mundo passa a encarar o uso digital entre crianças e adolescentes. Durante anos, o debate concentrou-se quase exclusivamente em pais e educadores, responsáveis por impor limites domésticos e escolares.
Agora, o foco se amplia: plataformas digitais e governos também passam a ser corresponsáveis pela proteção dos jovens. Enquanto alguns países apostam em medidas restritivas, outros priorizam a conscientização e a participação ativa das famílias. Apesar das diferenças, todas as abordagens partem de uma mesma constatação: as telas, por si só, não são o problema, mas sim o ecossistema digital que as envolve.
A discussão sobre o uso de tecnologia por crianças e adolescentes vai além de proibições ou limites de tempo. Trata-se de compreender como educar uma geração que já nasceu conectada, sem isolá-la do mundo digital nem expô-la a riscos descontrolados.
Pais, escolas e governos desempenham papéis complementares nesse processo:
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Referências
AP News. New French bill sets minimum age for social media use at 15. AP News, 27 jan. 2026, acessível em: https://apnews.com/article/france-social-media-ban-children-d3c4010741dd1a39f61c1f6d5bb3c85b. Acesso em: 28 jan. 2026.
GREEN, Hannah H. Screen time limits for children are no longer enough, new US report finds. The Guardian, 25 jan. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/us-news/2026/jan/25/screen-time-report?utm_source. Acesso em: 28 jan. 2026
RAWLINSON, Kevin. Schools in England should be phone-free all day, education secretary says. The Guardian, 26 jan. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/education/2026/jan/26/education-secretary-mobile-phone-ban-england-schools-ofsted?utm_source. Acesso em: 28 jan. 2026.
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