29 de abril de 2026

Imagem aproximada e anotada dos três orifícios que o rover Curiosity, da NASA, perfurou numa rocha marciana num local apelidado de «Mary Anning», em outubro de 2020. A amostra de onde o rover extraiu uma variedade de moléculas orgânicas veio de «Mary Anning 3». (Um ponto próximo apelidado de «Mary Anning 2» não foi utilizado.) NASA/JPL-Caltech/MSSS
O rover Curiosity identificou a maior diversidade de moléculas orgânicas alguma vez encontrada em Marte, incluindo sete nunca antes detectadas no planeta, e uma delas tem uma estrutura semelhante à dos precursores do ADN.
Em outubro de 2020, o rover Curiosity perfurou uma rocha marciana num local apelidado de «Mary Anning 3», em homenagem à paleontóloga britânica do século XIX. A amostra foi recolhida, pulverizada e analisada por um laboratório químico instalado no próprio rover. Porém, os resultados demoraram anos a ser interpretados com precisão, e o artigo com as conclusões finais foi publicado recentemente na revista Nature Communications.
A espera valeu a pena: a amostra continha 21 moléculas orgânicas, o maior conjunto alguma vez identificado numa única análise em Marte, sendo sete delas nunca antes detectadas no planeta. Entre estas, a mais significativa é um heterociclo de azoto, uma estrutura molecular com anéis de carbono e azoto considerada precursora do ARN e do ADN.
As moléculas orgânicas são compostos que contêm carbono e estão presentes nos mais diversos ambientes, como meteoritos, nuvens de gás interestelar e os oceanos da Terra primitiva. Embora a sua presença em Marte já fosse esperada, os cientistas surpreenderam-se com a variedade e a complexidade do material encontrado.
O heterociclo de azoto é especialmente relevante porque estruturas como esta encontram-se nas bases azotadas que compõem o ADN e o ARN, as moléculas responsáveis por armazenar e transmitir a informação genética em todos os organismos vivos da Terra. Amy Williams, geóloga da Universidade da Florida e autora principal do estudo, foi directa quanto ao significado da descoberta: «Esta detecção é bastante significativa porque estas estruturas podem ser precursoras químicas de moléculas de azoto mais complexas. Heterociclos de azoto nunca tinham sido encontrados na superfície marciana nem confirmados em meteoritos marcianos.»
Outra molécula identificada foi o benzotiofeno, um composto com carbono e enxofre presente em muitos meteoritos, reforçando a ideia de que parte da química orgânica de Marte pode ter chegado ao planeta transportada por impactos de asteroides há milhares de milhões de anos.
A descoberta levanta imediatamente a questão mais fascinante da exploração de Marte: estas moléculas foram criadas por processos geológicos, chegaram em meteoritos ou são vestígios de vida antiga? A resposta honesta, por agora, é que ninguém sabe.
Ashwin Vasavada, cientista-chefe da missão no JPL da NASA, foi cauteloso ao comentar: «Esta colecção de moléculas orgânicas aumenta uma vez mais a perspectiva de que Marte ofereceu um lar à vida num passado distante.» Aumenta a perspectiva, não a confirma. As moléculas orgânicas surgem naturalmente através de processos químicos que não envolvem seres vivos, e Marte tem uma longa história de actividade vulcânica e impactos de meteoritos que poderiam explicar estes compostos.
O que o estudo confirma, esse sim, é que a superfície marciana é capaz de preservar moléculas complexas durante 3.500 milhões de anos, mesmo exposta à radiação que bombardeia constantemente o planeta. Esta capacidade de preservação é decisiva: se alguma vez existiu vida em Marte, as evidências químicas podem ainda estar lá, à espera de serem encontradas.
O Curiosity já utilizou os seus dois recipientes de TMAH. Mas a técnica que provou funcionar em Marte vai agora viajar para outros mundos. Uma versão mais avançada do SAM, chamada Mars Organic Molecular Analyzer, está a ser desenvolvida para o rover Rosalind Franklin, da Agência Espacial Europeia. Um instrumento similar, o Dragonfly Mass Spectrometer, irá explorar Titã, a maior lua de Saturno, a bordo da sonda Dragonfly da NASA.
Em ambos os casos, a capacidade de realizar química húmida com TMAH será mantida, levando a outros mundos a mesma abordagem que revelou os compostos mais complexos alguma vez encontrados fora da Terra.
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Referências
CNN. Curiosity rover uncovers newly detected organic molecules. 24 abr. 2026. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.
NASA / JET PROPULSION LABORATORY. NASA's Curiosity finds organic molecules never seen before on Mars. Pasadena: JPL, 21 abr. 2026. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.
PHYS.ORG. Mars rover detects never-before-seen organic compounds in new experiment. 21 abr. 2026. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.
UNIVERSITY OF FLORIDA. Mars rover detects never-before-seen organic compounds in new experiment. Gainesville: UF News, abr. 2026. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.
WILLIAMS, Amy et al. Diverse organic molecules on Mars revealed by the first SAM TMAH experiment. Nature Communications, vol. 17, art. 2748, 2026. DOI: 10.1038/s41467-026-70656-0. Disponível aqui. Consultado em: 27 abr. 2026.
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